Todo sonho cobra um preço: uma história sobre foco e ilusão
Todo sonho está no topo de uma colina
Uma história contada por Jotta Júnior (copyright)
Em um pequeno povoado esquecido pelo mapa, vivia um jovem como tantos outros: roupas simples, casa humilde, família lutando para sobreviver. A diferença é que, dentro dele, morava um sonho enorme.
Enquanto ajudava em casa ou caminhava pelas ruas de terra batida, ele se perdia nas telas do celular velho que funcionava só quando queria. Ali via propagandas de carros reluzentes, viagens para lugares incríveis, mesas cheias de comidas que pareciam obras de arte. E sempre pensava:
Um dia isso vai ser a minha vida.
Não queria riqueza apenas para mostrar aos outros. Queria provar, para si mesmo, que podia ser mais. Que podia vencer. Que podia sair dali.
Certo fim de tarde, andando sozinho pela praia, tentando organizar os pensamentos, algo chamou sua atenção perto das pedras molhadas pela maré. Era uma garrafa estranha, antiga, com o vidro embaçado e uma rolha bem presa no gargalo.
Ele pegou a garrafa e ficou observando, curioso. Foi então que ouviu uma voz rouca e abafada:
— TIRE-ME DAQUI.
O coração quase pulou para fora do peito. Olhou ao redor. Não havia ninguém.
— Ei… sou eu aqui dentro! — insistiu a voz.
Com as mãos tremendo, o jovem arrancou a rolha. No mesmo instante, uma fumaça espessa saiu da garrafa, girando no ar até tomar forma. Diante dele surgiu um gênio, alto, com olhos brilhantes e um sorriso cansado.
— Obrigado, meu amo — disse ele, inclinando-se. — Tenho gratidão eterna por você. Por isso, vou lhe conceder a realização de um único desejo. Peça o que quiser.
O rapaz nem pensou muito.
— Quero ser bem-sucedido, rico, feliz… e viver em paz.
O gênio sorriu, como quem já esperava aquela resposta.
— Escolheste bem. Não posso lhe dar isso instantaneamente. Mas posso lhe dar o que compra isso. Pegue o que vou lhe entregar e siga até o alto da colina. Lá você encontrará um duende. Ele dirá quanto custa o que deseja. Basta pagar.
— Combinado! — disse o jovem, empolgado. — Quero ir agora!
O gênio, porém, levantou o dedo em alerta:
— A estrada é perigosa. É uma estrada de ilusões. Muitos tentarão fazer você gastar o que recebeu. Resista.
O rapaz riu.
— Relaxa. Eu dou conta.
O gênio então lhe entregou um pacote pesado. Ao abrir, o jovem viu dezenas de pedras de esmeralda, verdes, brilhantes, lindas como nunca tinha visto.
— É hoje — disse ele, olhando para o céu. — Meus sonhos começam agora.
Colocou o pacote na mochila e partiu.
Depois de uma hora de caminhada, o sol castigava forte. A garganta ardia, os lábios rachavam. Foi quando encontrou um homem vendendo água.
— Quanto custa? — perguntou.
— Cem reais.
O jovem suspirou. Não tinha dinheiro. Mas, ao lado da água comum, viu uma garrafa diferente, elegante.
— E essa?
— A bebida dos deuses — respondeu o homem. — Refresca o corpo e a alma. Prazer puro.
— Quanto?
— Uma pedra de esmeralda.
O jovem sorriu aliviado.
— Só uma? Tranquilo.
Entregou a pedra e tomou o líquido. Uma sensação incrível tomou conta dele. Ficou parado, olhos fechados, esquecendo do mundo por alguns minutos.
Quando voltou a si, o sol já estava mais alto.
— Droga… perdi tempo.
Seguiu apressado.
Mais adiante, encontrou uma tenda pequena. Dentro, um homem segurava um espelho dourado.
— Olhe — disse ele. — Aqui você vê quem pode se tornar.
No espelho, o jovem se viu famoso, respeitado, admirado.
— Quanto custa? — perguntou, encantado.
— Duas pedras.
Vale a pena, pensou. Isso vai me motivar.
Pagou.
Continuou andando, agora mais confiante… e com menos esmeraldas.
O estômago começou a doer. Foi quando sentiu um cheiro maravilhoso. Uma mesa cheia de comidas estava ali, como um sonho.
— Sente-se — disse uma mulher sorridente. — Aqui não existe fome.
— Quanto custa?
— Três pedras.
Ele hesitou. Mas a fome venceu.
Comeu demais. Descansou demais. Quando se levantou, estava lento… e preocupado.
Quase no fim da estrada, ouviu uma música suave. Um músico tocava algo hipnotizante.
— Essa música tira a ansiedade — disse ele. — Faz esquecer as cobranças.
O jovem pensou no duende, no sonho, no tempo perdido. Mas o cansaço falou mais alto.
— Quanto?
— Quatro pedras.
Ele entregou. Sentou. Ouviu.
Quando finalmente se levantou, correu como nunca.
Chegou ao topo da colina. Lá estava o duende, sentado sobre um baú.
— O que deseja? — perguntou.
— Tudo aquilo que sempre sonhei — respondeu o jovem.
O duende fez as contas.
— Dez pedras de esmeralda.
Com o coração disparado, o jovem abriu a mochila.
Uma… duas… três.
— Eu… não tenho.
O duende fechou o baú.
— Tinhas. Mas gastaste no caminho.
Naquele instante, o jovem entendeu tudo. Não perdeu as pedras. Perdeu o foco.
Caiu de joelhos. O sonho morreu ali.
Moral da história
A vida oferece muitas distrações disfarçadas de recompensa.
Quem troca o essencial pelo prazer imediato chega ao fim… de mãos vazias.
Sonhos grandes exigem escolhas difíceis.
E o verdadeiro sucesso começa quando aprendemos a dizer “não” no meio do caminho.



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